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Feminismo Diabolico

domingo, 29 de junho de 2014

Karen DeCrow, feminista que se tornou ativista por direitos dos homens

Karen DeCrow, feminista que se tornou ativista por direitos dos homens

June 16, 2014 By Aldir Gracindo 1 Comment



Dias atrás eu vi alguns textos interessantes sobre o falecimento de uma feminista que se tornou também ativista por Direitos dos Homens e Crianças. O artigo que mais me chamou a atenção foi o da Cathy Young, fonte de quase todas as informações a seguir.
Karen DeCrow era advogada, escritora, feminista, presidiu a maior organização feminista nos EUA, a National Organization for Women (NOW) de 1974 a 1977 e faleceu devido a um melanoma na última sexta-feira, aos 76 anos. DeCrow, uma grande defensora dos direitos das mulheres, no entanto era crítica dos rumos do feminismo contemporâneo, incluindo as ideias feministas sobre o que hoje chamam “cultura do estupro” e sobre a violência doméstica. Sendo sempre uma feminista, ela passou a ser também ativista por direitos dos homens.
Em 1981, DeCrow participou do conselho de defesa jurídica de Frank Serpico, ex-detetive em Nova Iorque e informante, num processo de paternidade. Serpico afirmava que a queixosa o tinha usado como “banco de sêmen” e o tinha enganado sobre estar tomando pílula anticoncepcional, quando conscientemente estava tentando conceber. Além disso, em vista de que com a legalização total do aborto lá, ele argumentava pelo mesmo direito constitucional que qualquer mulher lá, nos mesmos termos: não se tornar pai contra sua vontade.
DeCrow apoiou o caso de Serpico, como advogada autônoma e fundamentando-se em princípios feministas. “Da mesma forma que a Suprema Corte disse que as mulheres têm o direito de escolher ser ou não mães, os homens também devem ter esse direito,” disse ela ao The New York Times, considerando isso “o único posicionamento lógico feminista a se ter.”
Marjory D. Fields, então co-diretora da força tarefa contra violência doméstica do Governador Mario Cuomo e posteriormente juíza em Vara de Família, considerou as táticas de defesa no caso como “uma quase clássica apresentação anti-mulher: que as mulheres seduzem e prendem os homens em armadilhas com suas artimanhas femininas.” DeCrow não se intimidou. Numa carta ao Times em 1982, ela diria que, desde que os homens não têm poder legal para obrigar ou vetar um aborto, é justa consequência que eles não deveriam ter que pagar pela decisão unilateral de uma mulher de levar uma gravidez a termo: “Ou, colocando de outra forma, mulheres autônomas tomando decisões independentes sobre suas vidas não deveriam esperar que os homens financiem suas escolhas.”
DeCrow também defendeu os direitos dos homens como pais, argumentando a favor de uma “presunção relativa” de guarda compartilhada em caso de divórcio. Ela trabalhou com a Associação de Direitos dos Pais no Estado de Nova Iorque e participou da mesa diretora do Conselho pelos Direitos das Crianças, um grupo em defesa da guarda conjunta. Depois, ela também participou da coordenação do grupo Mulheres Líderes pela Guarda Compartilhada – ironicamente, uma de suas colegas então foi a proeminente conservadora Phyllis Schlafly, com quem DeCrow frequentemente debatia nas universidades nas décadas de 1980 e 1990. Este é um vídeo de uma fala dela (em inglês) no canal do grupo no Youtube:
Novamente, DeCrow se fundamentava na sua visão de feminista igualitária, argumentando que ter os homens mais envolvidos na parentalidade direta era essencial para que as mulheres alcançassem igualdade em outras atividades (conforme ela explicou em um discurso em 1982 no Congresso Nacional de Homens, reimpresso no periódico da filial da Greater Syracuse da N.O.W.). Muitas feministas endossaram a ideia de igualdade na liberação e responsabilidade parental, cuidado das crianças e atividades domésticas. Gloria Steinem certa vez disse que “as mulheres não serão iguais fora de casa enquanto os homens não forem iguais dentro de casa.” Mas poucas delas estavam dispostas dar o passo seguinte e contextualizar a guarda dos filhos em termos de direitos dos homens, ou se colocar, como feministas, do lado dos homens e contra mulheres que queriam a guarda unilateral.
DeCrow estava disposta a esse passo e dizer que muitas mães divorciadas, cujas vidas profissionais se beneficiariam da guarda conjunta se opunham irracionalmente a essa opção – não apenas pelo estigma social de serem vistas como mães ruins, mas por pura hostilidade em relação aos ex-maridos. Em uma coluna do Dia dos Pais em 1984, DeCrow descreveu uma conversa com uma cliente, uma mãe divorciada de três filhos que estava com problemas para cuidar das crianças por causa de um horário de trabalho incomum: “‘E o pai?’, eu perguntei. ‘Ele está disposto a estar com eles durante essas horas?’ ‘O pai deles?’, ela exclamou. ‘Isso é tudo que ele quer!’”
Para a maioria feminista, tudo isso é um eco de estereótipos misóginos que o “Patriarcado” nos inculcou sobre ex-esposas rancorosas. Para DeCrow, porém, não era questão “de gênero”, era uma questão humana. Em 1994, ela lamentou numa entrevista que “na guerra dos sexos, homens e mulheres irão até o fim do mundo de formas ilógicas, irracionais, para causar dor um no outro.” DeCrow via isso como um comportamento de homens e mulheres e da mesma forma ela era simpática à noção de que a violência doméstica não é uma via de mão única, noção abominada pela maioria feminista.
Nos anos 70 ela lutava contra leis sobre estupro que questionavam a castidade das mulheres vítimas. No início dos anos 90, ela aplaudiu a crítica que Katie Roiphe fez do “feminismo de crise de estupro” (hoje chamado “cultura do estupro”), The Morning After, que afrontava o “neopuritanismo” que pintava as mulheres como vítimas perpétuas dos homens predadores e recauchutava a mentalidade triste e arcaica que ensinava as jovens a negar tanto seu cérebro quanto sua sexualidade. DeCrow era intolerante à ideia de que ser alvejada por um assobio ou, ou som de chupada feito com a boca, fossem contabilizados como “opressão”.
Ela nunca abandonou a crença de que homens e mulheres eram muito mais parecidos do que diferentes.
As suas heresias foram além. DeCrow, que tinha iniciado sua jornada feminista lutando contra discriminações contra as mulheres no trabalho, prefaciou o livro de Por que os homens ganham mais, (de 2005, ainda sem tradução para o português) de Warren Farrell, que mostrava, como inúmeros outros estudos, que a diferença salarial entre homens e mulheres se devia em muito às escolhas diferentes que homens e mulheres fazem e ensinava às mulheres como ganhar o mesmo que os homens, se assim quisessem. DeCrow acreditava que entender esses padrões de comportamento poderia ajudar o avanço das mulheres. Mesmo com intenções puramente feministas, ela estava contrariando a visão partidária feminista apenas em colaborar com Farrell, ex-membro da diretoria da NOW em Nova Iorque quando ela foi presidente, mas que tinha sido excomungado do movimento feminista por defender a liberação também dos homens.
Embora nunca tenha rompido com a organização que presidiu, DeCrow estava cada vez mais distoante dela. Em meados dos anos 90, a NOW atacava o movimento por direitos dos pais, nomeando-o de “direita extremista”, afirmando que as mulheres eram as verdadeiras vítimas de preconceito nas Varas de Família, convocando protestos em 1996, considerando os ativistas por direitos dos pais como grupos de espancadores tentando manter as mulheres sob controle. Três anos depois, em uma resolução, a NOW oficialmente determinou que defenderia os interesses das mulheres nos divórcios e na guarda dos filhos, contra a influência “indevida” dos grupos de pais. A NOW até hoje se refere a guarda compartilhada de “partilha forçada”, etc. – o que lembra o posicionamento dos juízes devidamente treinados pelas secretarias feministas nos Tribunais de Justiça a considerar a guarda compartilhada uma “prioridade”, mas só se houver “harmonia” (ou seja, se a progenitora autorizar) e chegam a determinar visitas quinzenais e chamá-las mentirosamente de guarda compartilhada nos autos do processo. DeCrow, então presidente da filial da NOW na Greater Syracuse, evitou contrariar essas decisões. Em 2000, ela diria a Cathy Young que ouviu sobre a resolução, mas não a tinha lido e não poderia comentar.
Ela se recusava a aceitar determinismo biológico ou convenções sociais (“Patriarcado”) como destino. Definitivamente uma feminista, mas seria vista por muitos hoje como uma relíquia do “feminismo unissex” dos anos 70, na sua visão de homens e mulheres como muito mais parecidos do que diferentes. Em um ensaio para o Chicago Tribune em 1994, sobre o livro Fire with Fire, de Naomi Wolf, ela propunha “tirar o gênero do debate de gênero” e focar no Humano, questionando se os homens realmente têm mais poder sobre suas vidas do que as mulheres: “Wolf é exata e acerta no alvo quando escreve que as mulheres devem sair da autoimagem de fragilidade para uma outra, de força. Mas se nós falharmos em ver o que nos salta aos olhos – que os homens têm fragilidades como nós – estaremos fazendo sempre metade da corrida.”
Cathy Young comenta que conheceu DeCrow in 1994, quando as duas apareceram numa coleção de entrevistas sobre o lado dos homens em questões de gênero, Good will towards men, (em português seria “Boa vontade para com os homens”) de Jack Kammer, se reencontraram em outros eventos, e Young lembra uma história contada por DeCrow sobre a repetição irrefletida de meios tradicionais de agir:
Segundo Young, DeCrow descreveu certa vez que, quando se casou e passou a cozinhar, DeCrow sempre cortava a carne antes de colocar para assar no forno. Certa vez, seu marido lhe perguntou por que ela recortava a carne assim. Ela o fazia porque era como a mãe dela fazia e ela simplesmente achava que esse era o jeito certo de fazer. A mãe dela, por sua vez, também não sabia por que, tinha aprendido com a avó. A explicação da avó para o mistério foi interessante: “Porque o nosso forno era tão pequeno que esse era o único jeito da carne caber dentro dele!”
Para Cathy, isso representava bem o jeito bem-humorado, leve, de Karen DeCrow, como a visão dela dos papéis tradicionais: não como um sistema malévolo criado para oprimir, mas como formas de agir que são capazes de sobreviver à sua utilidade prática.
Em 14 de junho, o A Voice for Men publicou a seguinte nota de Warren Farrell em reconhecimento a DeCrow:
Karen DeCrow e eu fomos amigos por mais de 40 anos. No início da década de 70, quando ela era Presidente da NOW (National Organization for Women) e eu participava da mesa diretora de filial de Nova Iorque, ela me pediu para liderar a Força Tarefa da NOW sobre a Mística Masculina. Quando outros protestaram contra minha expansão da liberação para incluir os homens, a Karen me apoiou.
Karen e eu trabalhamos juntos quando eu organizei a ala masculina na Greve de Mulheres por Igualdade em Washington. Ela valorizava os homens como auxiliares, mas também entendia que nós tínhamos nosso próprio trabalho a fazer – não como opressores pedindo perdão, mas como outros humanos usando camisas de forças paralelas.
No início dos anos 70, Gloria Steinem, Betty Friedan, Karen e eu muitas vezes dizíamos: “O que o mundo precisa é de mais mulheres no trabalho e mais pais em casa.” Esse era o posicionamento da N.O.W. até 1973, mais ou menos. Porém, quando os divórcios aumentaram, a NOW começou a ouvir de mães que elas estavam saindo da organização porque, como normalmente se ouvia reclamarem, “Eu sei o que é melhor para o meu filho; Eu sei o que ela ou ele precisa. Se eu não quero o pai envolvido, é por alguma razão – ou ele é um mau pai ou nós tivemos uma má experiência e eu preciso levar meus filhos embora e começar uma vida nova, só isso.”
A N.O.W. ficou presa entre apoiar a igualdade e arriscar sua base de apoio. Escolheu não arriscar a base. Gloria e Betty, mesmo não mudando de posicionamento no discurso, fizeram vistas grossas enquanto a NOW intensificou seus esforços para retratar os homens como os abandonadores ou egoístas (“eles só querem o dinheiro”) ou com tendência à violência. Karen foi a única líder feminista que não apenas falava diferente disso, mas concordou em falar em conferências para os pais. A coragem de Karen marginalizou-a da liderança feminista e dos milhões de dólares em palestras que, de outra forma, ela teria obtido.
Eu sabia o que Karen estava passando, porque eu segui a mesma estrada que ela. Enquanto a minha separação foi clara, Karen tentou caminhar na corda bamba entre a integridade e manter suas colegas e amigas feministas.
Quando ela concordou, em 2005, em escrever o prefácio para Por que os homens ganham mais: a espantosa verdade por trás da diferença salarial – e o que as mulheres podem fazer sobre isso, ela me contou algumas de suas preocupações de toda a vida com a perda do apoio feminista. Não era só a perda dos pagamentos pelas palestras. Era o isolamento. Era o desejo de liderar, mas ser afastada pelas lideranças feministas.
Enquanto Karen me falava daquilo, eu via o anjo e demônio lutando dentro dela. No caso do prefácio e em outros casos que eu testemunhei, Karen quase sempre escolheu o anjo da integridade.
Com a morte de Karen, falece uma feminista cuja liderança, se lhe fosse permitido guiar, teria permitido a milhões de crianças terem tido um pai para guia-las e amá-las.
Eu vi e vejo muita coisa sobre questões masculinas que nunca chegaram a ser disponibilizadas em português, online ou não. Essa história, com tudo que ela contém sobre política e gênero, e tudo que ela leva a pensar, é uma que eu achei relevante para nós aqui.

Abraço forte,

Aldir.

Fonte: http://br.avoiceformen.com/recomendados/karen-decrow-a-feminista-que-se-tornou-ativista-por-direitos-dos-homens/

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