Novo endereço do nosso site

Novo endereço do nosso site
Feminismo Diabolico

terça-feira, 27 de maio de 2014

É o ativismo ou a histeria que leva pessoas a chamar RuPaul de transfóbica?

É o ativismo ou a histeria que leva pessoas a chamar RuPaul de transfóbica?

Na ânsia por opositores, pseudoativistas exigem que aliados sejam mero eco de suas escolhas verbais e apontam armas para os alvos errados

26 mai 2014por: James Cimino





“Não se atreva a me dizer o que eu posso falar ou fazer!” Assim respondeu RuPaul Charles, a top drag queen RuPaul, ao ser acusada de transfobia pelo uso das expressões “tranny” e “she male” em seu famoso reality show.
“Tranny” e “she male” (travinha e mulher macho, em tradução livre) são considerados termos ofensivos para a comunidade transexual, já que eles e elas não são travestis e tampouco se consideram híbridos (transexuais em geral têm gêneros definidos por sua psiquê, não pela genitália, portanto devem ser tratados socialmente como homens ou mulheres, podendo ser homossexuais ou heterossexuais).
Posto isso, a questão que surge é: RuPaul, com todo seu histórico de lutas e defesa dos direitos da comunidade LGBT, pode ser chamada de transfóbica? Ou isso é apenas histeria de pseudo-ativista fanático? Eu opto pela segunda.
O caso de RuPaul não é isolado. Madonna recentemente participou de uma conversa no site BuzzFeed durante a qual participou de uma brincadeira. O pessoal do site lhe mostrava um cartaz com um nome e ela deveria escrever, em outro cartaz, algo sobre aquele nome. Quando lhe mostraram “Putin”, ela escreveu “gay”. Em seguida, mostraram-lhe a palavra “couve”. Novamente ela escreveu “gay”. Bastou para que começassem a classificar Madonna, justamente a Madonna, de homofóbica.
Pouco tempo antes desse fato, também chamaram-na de racista por ela ter usado a palavra “nigga” (uma gíria para “nigger”, que, para os negros americanos, é super ofensiva). Justo a Madonna, que tem dois filhos adotivos negros, que construiu 15 escolas para meninas no Malauí, que namorou latinos, negros, brancos e que sempre deu toda abertura ao multiculturalismo em sua música e shows.

Também podemos citar a polêmica em torno de #somostodosmacacos, que levou muito ativista a pular miudinho por causa de uma expressão que pode ter outros significados, como por exemplo o de que todos nós seres humanos que praticamos o racismo agimos como pessoas selvagens ou ainda que biologicamente compartilhamos com os macacos 97% do nosso DNA, portanto se um negro é um macaco um branco também é (e aí, onde está a ofensa?).
Agora, a polêmica sobre o uso e o peso que damos às palavras chegou aqui ao Lado Bi. Em entrevista ao programa, na semana passada (ouça a íntegra aqui), Regina Duarte falou do desgaste da palavra feminismo, que virou sinônimo de gente chata, de mulher que não gosta de homem e de mulher frígida. A frase, tirada de seu contexto, denota uma aversão ao feminismo, mas o fato é que, pouco antes dessa afirmação, a atriz de “Malu Mulher” disse que “a palavra feminismo foi usada em vão para designar coisas que nada têm a ver com a libertação da mulher” e os direitos dela sobre suas vontades e seu corpo. Mas as feminazis de Twitter e Facebook, que provavelmente nem se deram ao trabalho de ouvir o programa todo, já torceram o nariz e com a previsibilidade máxima, usaram a batida piada do “eu tenho medo”.
Quem tem medo dessas pessoas sou eu. Sinceramente. Tenho medo de quem não têm qualquer senso de humor e que é incapaz de rir de si mesmo (uma ou duas lições sobre a autossátira nesta entrevista que fiz com Marília Gabriela na semana passada). Tenho medo de pessoas que acham que porque você “pertence a uma classe” você tem que necessariamente concordar com tudo o que elas dizem e repetir, ipsis literis, o que elas definiram como politicamente correto. Tenho medo de pessoas que se apegam tanto a uma causa que são incapazes de praticar autocrítica. Tenho medo de gente que acha que o comportamento humano ou é preto ou é branco, especialmente quando isso parte da comunidade LGBT, cujo símbolo é o arco-iris. E mais ainda, tenho medo de todos que opinam apenas lendo títulos e que excluem de sua interpretação uma parte importante do discurso chamada contexto.

O poder que damos às palavras

Mas voltando ao caso de RuPaul, percebo como o ativismo de internet tem dado tanta importância ao uso de palavras. Veja o que mais ela disse sobre o poder que damos a elas.


Madonna usa o adjetivo “gay” para o presidente russo Valdimir Putin. Ele talvez ache isso ofensivo, mas ela foi homofóbica? Acho que não…
“São só palavras. Sim, palavras machucam. ‘Palavras me machucam’. Quer saber? Gata, você precisa se fortalecer. Porque, sabe de uma coisa, se você está chateada por causa de algo que eu disse, você tem problemas maiores do que pensa.”
Em seguida, disse não acreditar que as acusações tenham partido de ativistas da causa trans, que teriam entendido que aquilo foi uma piada. “Algumas pessoas não entenderam a piada e usam sua vitimização para criar uma situação. Você olha para mim e quer que eu aja do jeito que você gostaria que eu fosse. Mas, sabe, se sua ideia de felicidade tem a ver com o que alguém deixa de falar ou com alguém deixar de fazer o que quiser, você está escolhendo um caminho bem pedregoso.”
Eu já disse isso, inclusive parafraseando a RuPaul, de que o poder das palavras é dado pela ideia que nós fazemos delas. Hoje mesmo, Danilo Gentili disse em entrevista ao UOL que não liga que o chamem de gay, “porque eu não sou e porque ainda que eu fosse gay, ser gay não é algo ruim. Não tem nada de errado nisso”. Criolo já disse o mesmo. George Clooney idem. Então, se você ainda se ofende quando te chamam de viado, macaco, sapatão, gay, bicha, puta, vadia, traveco, desculpa, mas você está se vitimizando e, assim, dando poder ao agressor.
Nada mais eficiente contra um “xingamento” que nossa autoestima. Se você sabe quem é, não se ofende com ofensa pobre. E, mais, se você conhece o verdadeiro significado das palavras, ou ainda os outros significados que as palavras podem ter, vai se ofender menos ainda. Então, vamos apontar nosso ativismo aos reais inimigos? Porque, sinceramente, ficar policiando piada de gente que sempre lutou pela causa é estupidez pura.
E, sempre bom lembrar a frase com que RuPaul encerra seus programas: “Se você não consegue amar a si mesmo, como diabos vai querer amar alguém?”

Fonte: http://www.ladobi.com/2014/05/ativismo-ou-histeria-rupaul/ 

Nenhum comentário :

Postar um comentário

ShareThis

Veja também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...